A masmorra
três correntes me aprisionam:
o pânico, a ansiedade e a depressão.
o primeiro me olha de cara feia,
e eu nem posso lhe retribuir.
pois ele já nasceu assim, horripilante,
e eu linda nasci.
a segunda moléstia se mostra implacável, ninguém imagina seu poder letal,
por fora ela nem parece que existe,
mas ainda assim ela insiste:
"sua vida nunca mais será normal".
a depressão é o demônio purinho,
já estive frente a frente com esse cidadão,
o danado sussurra em nosso ouvido,
diz que nossa vida não mais faz sentido,
e eu finjo falta de audição.
a medicina dos homens é imprescindível,
a moça da psicologia é eficaz,
a ciência trabalha para curar.
mas tenho oxum no meu orí,
oyá e obaluaê na minha vida,
e quando se tem a cabeça protegida,
mal nenhum há de durar.
eu sinto de longe a força ancestral,
e ela aponta para uma direção:
não é necessário que eu corra.
vou pegar as correntes, prender as moléstias:
e jogá-las numa masmorra.
darei as chaves aos leões,
para que nunca mais elas saiam de lá,
um dia eu também estarei livre,
vai parecer que eu nunca as tive,
e continuarei a brilhar.
se você acha que é possível
alguém fingir que tem essas moléstias,
ou mesmo doença inventar,
ouça bem o que eu vou falar:
hoje eu estou no ringue, na luta.
mas amanhã eu hei de levantar.
mas amanhã eu hei de levantar.
sâmara Azevedo® (2023)

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