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Antes que eu soubesse

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É estranho quando somos obrigados a fazer uma escolha que o outro já fez por nós. Porque ele já havia escolhido, Antes que eu soubesse. Escolheu ir. Odiou aos berros, e amou em silêncio. E nem era problema no controle remoto. De repente, tudo ficou cinza. Sua ausência esvaziou o ninho. E isso é estranho, porque um dia Você me fez enxergar tudo colorido. Com você, tudo era divertido. Todo sabor parecia incomum. Toda descoberta, interessante. Toda novidade, fascinante. Até o cansaço era diferente. O afago era o melhor de todos. E as conversas mais profundas, eram, de algum jeito, leves. E agora, no meio de tantas pessoas, sejam elas como forem, dizendo o que quiserem, apresentando outros sabores, Ninguém se compara a você. É só um monte de gente sem graça. Você deixou um buraco, que eu nem me atrevo a preencher. Ele vai ficar aqui. Vazio. Porque, no meio de suas demandas, tantas obrigações e falta de tempo, tantas coisas acontecendo, você esqueceu de me dizer que eu não fazia parte dos s...

A porta

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No começo a porta estava entreaberta, Porque eu não sabia quem iria entrar. Você chegou e a permanência era incerta, Mas eu resolvi deixar. Depois eu decidi abrir a porta,  Eu a deixei escancarada, Você foi ficando no meio dela,  Sem decidir pelo tudo ou pelo nada. Permaneci sendo a própria porta, E segui esperando sua decisão, Se você entra ou vai sair, Se é sim ou se é não. E você nada decide, Se entra ou sai por essa porta, Então ninguém passa por ela, Nem pela porta,  Muito menos pela janela. Então te peço, por favor, Se não tem interesse em ficar, Saia e deixe a porta livre, Para que outra pessoa possa entrar. sâmara azevedo®

Matripotência

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  na tessitura política entre cura e libertação, a vida nos fala em acordes: meu lugar é onde eu quero, onde espero e me permito estar. sei onde habita meu pranto, e nesse momento me encontro, ocupando todo lugar. a ancestralidade nos convida a mergulhar, em histórias que fervem no corpo, e respingam na alma, se encontram nas reminiscências, memórias que cruzam o atlântico, até o ventre da matripotência. o mar nos faz corpo-travessia, no imaginário da mulher amefricana: no cuidado coletivo que cria e sustenta, entre o novo e o antigo, até a deusa soberana. mesmo quando o patriarcado colonizador, tenta nos impedir de transcender, ditando aquilo que é permitido, dizendo o que não podemos ser. pois os homens tecem suas masculinidades, em pactos íntimos, porém fragmentados, ignorando a mandinga fêmea transmutada, que resiste ao cisheteropatriarcado. a matripotência é senhora do sagrado: é a mãe preta que alimenta saberes, é o mundo concebido e povoado, encarnado na semelhança dos seres...

Amuleto

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pé de pato mangalô três veis carranca de ribeirinha  patuá, lírio-da-paz, rosa dos ventos trevo de quatro folhas vence tudo, abre caminho contregum, pé de coelho olho grego, espada de são jorge anil, sal grosso, defumação incenso, reza forte, mão de hamsá mandala, mandinga, pimenteira infinito, turmalina, ferradura espelho baguá, elefante, olho de hórus pentagrama, escudo celta, banho de pipoca apanhador de sonhos, alho, cruz solar arruda, figa de guiné, salmo 91 pemba, banho de abô, tridente de ferro fios e contas, vela branca, escapulário rosário, talismã, oferenda, cruz solar, machado, espadim escaravelho, dragão chinês, biscoito da sorte comigo-ninguém-pode, sal grosso, feng shui olho turco, buda, quartzo, vodu radiestesia, alecrim, vaso de sete ervas fita do senhor do bonfim, heiki, lord ganesha. Como pode ser melhor, universo? boca fechada planos secretos pés ligeiros: devagar também se chega. sâmara Azevedo®

A masmorra

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  três correntes me aprisionam:  o pânico, a ansiedade e a depressão.  o primeiro me olha de cara feia,  e eu nem posso lhe retribuir.  pois ele já nasceu assim, horripilante, e eu linda nasci. a segunda moléstia se mostra implacável, ninguém imagina seu poder letal,  por fora ela nem parece que existe,  mas ainda assim ela insiste:  "sua vida nunca mais será normal". a depressão é o demônio purinho,  já estive frente a frente com esse cidadão,  o danado sussurra em nosso ouvido,  diz que nossa vida não mais faz sentido,  e eu finjo falta de audição. a medicina dos homens é imprescindível, a moça da psicologia é eficaz,  a ciência trabalha para curar.  mas tenho oxum no meu orí, oyá e obaluaê na minha vida, e quando se tem a cabeça protegida, mal nenhum há de durar. eu sinto de longe a força ancestral,  e ela aponta para uma direção:  não é necessário que eu corra.  vou pegar as correntes, prender as mo...

Aurora

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das feridas que gritaram em silêncio,  nasceu a súplica da minha liberdade,  onde a dor se desfaz e a força se reinventa, enfiando em minha mente essa verdade. e esta se revela rude, brutal, ainda estou catando o que sobrou,  e a verdade que habita no poder, sabe que um cristal que foi quebrado, mesmo colado, nunca inteiro ele volta a ser. mas veja a aurora! que mesmo após a noite mais densa, surge pintando o céu de novas cores, porque a luz sempre encontrará o seu caminho, e como a aurora, haveremos de recomeçar, mesmo juntando pedacinho por pedacinho. é no levantar que a força renasce, é no levantar que a rejeição se desfaz, como quem encontra o sol depois da ilusão,  Como quem encontra uma força audaz, nos escombros que ressurgem do chão.  e sua ausência que até ontem me dilacerava, hoje já não me sufoca mais. a aurora me ensina a experiência que fica. a diferença é que o amor que descobri agora, ele floresce, e não suplica. sâmara de azevedo

Síndrome de Burnout

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" Para ser forte precisa do que? Levar um tiro??" É desafiador falar de um tema tão invisibilizado e chacoteado pela sociedade. Outro dia, alguém comentou na internet que “burnout era doença de playboy, já que um pedreiro jamais teria tal comorbidade”. Eu fiquei pensando em que lugar um playboy teria burnout. Playboys não trabalham! Pedreiros têm burnout. Pedreiros trabalham pra caralho. Talvez não saibam. Talvez não tenham o direito de falar que têm. São silenciados pelo preconceito, pelo estigma social, pelo capitalismo, pela desumanização.... Qualquer pessoa, de qualquer profissão, pode ter burnout. “A síndrome de Burnout (ou esgotamento profissional) é um transtorno psíquico causado por estresse crônico no ambiente de trabalho, especialmente quando há excesso de demandas, pressão constante e falta de reconhecimento.” (FONTE: MINISTÉRIO DA SAÚDE). A fala de alguém na internet, recheada de escárnio e falta de empatia, revela uma amostra do que sofrem os profissionais com bu...