Matripotência

 

na tessitura política entre cura e libertação,
a vida nos fala em acordes:
meu lugar é onde eu quero,
onde espero e me permito estar.
sei onde habita meu pranto,
e nesse momento me encontro,
ocupando todo lugar.

a ancestralidade nos convida a mergulhar,
em histórias que fervem no corpo,
e respingam na alma,
se encontram nas reminiscências,
memórias que cruzam o atlântico,
até o ventre da matripotência.

o mar nos faz corpo-travessia,
no imaginário da mulher amefricana:
no cuidado coletivo que cria e sustenta,
entre o novo e o antigo,
até a deusa soberana.

mesmo quando o patriarcado colonizador,
tenta nos impedir de transcender,
ditando aquilo que é permitido,
dizendo o que não podemos ser.

pois os homens tecem suas masculinidades,
em pactos íntimos, porém fragmentados,
ignorando a mandinga fêmea transmutada,
que resiste ao cisheteropatriarcado.

a matripotência é senhora do sagrado:
é a mãe preta que alimenta saberes,
é o mundo concebido e povoado,
encarnado na semelhança dos seres.

a matripotência é um corpo biomítico 
é o poder primordial da criação,
é a trama, a ranhura, a escrita, 
que habita onde não há mais servidão.

a matripotência é o corpo encantado,
liberto da colonialidade e do ocidente,
pois ninguém irá deter a revolução,
que emerge da dimensão matripotente.

sâmara azevedo®


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